As histórias do Velho-Oeste talvez sejam as que mais foram contadas e recontadas desde a invenção do cinema. Convém lembrar que tal fenômeno não se restringiu apenas aos Estados Unidos,… Leia mais

As histórias do Velho-Oeste talvez sejam as que mais foram contadas e recontadas desde a invenção do cinema. Convém lembrar que tal fenômeno não se restringiu apenas aos Estados Unidos, pois há filmes de Bang-Bang produzidos na Itália, Alemanha, na antiga Iugoslávia, Macedônia, Hong Kong, na União Soviética (conhecido como western vermelho, pasmem!) e até no Brasil. O faroeste rompeu fronteiras e conquistou outras mídias como o rádio, quadrinhos, televisão, livros, games e até a música – temos nossa própria versão com Faroeste Caboclo do Legião Urbana. E o interessante é que toda essa dimensão de narrativas retrata um período histórico curtíssimo. A expansão territorial dos Estados Unidos rumo ao Velho-Oeste aconteceu no século XIX entre os anos de 1860 a 1890. A julgar pela quantidade de filmes do gênero parece que tal período histórico durou centenas de anos.

Se foi um momento histórico tão pequeno, por que há tantos filmes, séries, livros, quadrinhos, games e canções? Podemos olhar de modo mais profundo e encontrar temas recorrentes, universais, que represente o gênero. Elencamos quatro deles aqui:

1 – A Fronteira

A fronteira é um tema frequente nas tramas de faroeste, pois a necessidade de expansão territorial leva a conflitos de interesses, seja entre o homem “civilizado” e o selvagem, seja entre os próprios colonos. É preciso invadir, conquistar, recuperar, avançar as cercas, tanto as literais como as metafóricas. O cruzar fronteiras simboliza a busca pelo desconhecido visando novas oportunidades. Há no transpassar dos limites o confronto entre o velho e o novo, a vida e a morte, o moral e imoral, a lei e caos, progresso desenfreado e a vida natural, geralmente a um custo muito alto aos protagonistas de tal empreitada. A violência do choque das múltiplas culturas é expressa pelos tiroteios, sangue e pelo próprio conceito onomatopeico Bang-Bang!

 

2 – O Pistoleiro

A figura do pistoleiro é rodeada de mistérios, seja tal personagem configurado como o xerife do vilarejo ou como o estrangeiro rápido no gatilho. É frequente o público desconhecer as motivações do pistoleiro ao longo da trama para apenas no clímax surgir a revelação. Geralmente trata-se de uma história de redenção. Há algo de errado, seja no tempo presente ou no passado que leva o pistoleiro a arriscar-se entre bandidos, selvagens, corruptos, etc. para apagar os fantasmas da consciência. O arquétipo do pistoleiro aparece sempre rodeado por cowboys destemidos, caçadores de recompensa, a concubina, xerifes bundões ou corruptos, bandidos cruéis, índios ferozes ou injustiçados. A busca pela redenção é o tema central do pistoleiro. Um exemplo moderno fora dos westerns clássicos é Han Solo, de Star Wars.

 

3 – O cenário

O ambiente e cenário na trama western é outro ponto à parte, muitas vezes mais importantes do que as personagens em si. Belas imagens de lugares distantes, áridos e selvagens simbolizam a pequenez do homem diante da natureza e do desconhecido. Há o choque visual da natureza inexplorada com o vilarejo e suas modernidades. A estrada de ferro avança sobre o terreno inóspito levando as novas tecnologias como o telégrafo, a energia elétrica e os primeiros automóveis. No assentamento da civilização sempre encontramos as brigas no saloon, o banco, o cabaré, a igreja no centro da rua principal, o cemitério e coveiro fabricando caixões, o duelo na rua principal, a perseguição a cavalo, minas abandonadas. O cenário expressa a natureza contraditória do homem do oeste.

Podemos incluir no cenário o fato de haver poucos diálogos, quase monossilábicos – o Velho-Oeste não conversa, age. Talvez por essa razão o gênero foi facilmente transportado para mídias visuais, como os quadrinhos e games, assim como o grande apelo das revistas pulp dos anos vinte aos cinquenta do século passado.

 

4 – O Êxtase pelo Ouro

Expressão imortalizada na trilha de Ennio Morricone, o êxtase pelo ouro é uma situação psicológica onde a personagem é invadida por uma fascinação pelo ouro, ou melhor, fica extasiada pela possibilidade de enriquecimento, poder e liberdade dada àquele que possuir o metal dourado. Tal situação psicológica pode ser simbolizada por outros objetos de poder, não apenas o ouro literal. Quando domado pelo êxtase, o sujeito fica cego para outros valores como amizade, amor, bom senso, autocuidado, arriscando-se desmedidamente para alcançar tal objetivo. É muito frequente encontrarmos narrativas em que o ouro está amaldiçoado, levando o seu possuidor a loucura ou outras desgraças. Vimos isso com Thorin – Escudo de Carvalho no livro O Hobbit de J.R.R Tolkien, ou no primeiro filme Piratas do Caribe. Ou seja, o êxtase pelo ouro transpõe as fronteiras do faroeste revelando-se como uma dinâmica humana. Mas como nas características discutidas nos itens acima, foi o Bang-Bang que trouxe tal discussão pela primeira vez.

***

Agora vejamos alguns exemplos da expansão do gênero:

Há filmes modernos com mitologias diversas, mas com a dinâmica western em sua essência. Por exemplo, o filme O Livro de Eli (2010) se passa em um mundo pós-apocalítico (cenário?) onde Eli (pistoleiro?) vaga há mais de trinta anos (fronteira?) protegendo uma relíquia. Ao chegar em um vilarejo o prefeito local tenta usar o poder de tal relíquia para governar outras cidades (êxtase pelo ouro?).

Outro exemplo é a atual série da HBO, Westworld (2016). A narrativa se passa em um parque de diversões temático do Velho-Oeste. Lá os visitantes interagem com robôs que dão vida ao parque. A experiência de imersão é tão real que causa efeitos psicológicos tanto nos humanos quanto nos… robôs. Isso mesmo, uma ficção cientifica no mundo do Bang-Bang.

Outro exemplo de ficção científica é o filme Cowboys & Aliens (2011). A história se passa em 1873, tem mocinho, tem bandido, e tem naves espaciais alienígenas…

No gênero fantasia, o filme Avatar (2009) de James Cameron também é um western moderno. Inclusive é muito comum a associação do roteiro de Avatar com o filme Dança com Lobos de 1990.

E por fim Mad Max: estrada da fúria (2015) também se trata de um western, pois a trama nada mais é do que uma imensa perseguição de “cavalos motorizados” pelo deserto tendo Max como a representação do arquétipo do pistoleiro solitário.

Estes são alguns poucos exemplos, mas que ilustram bem a dimensão e importância do faroeste na cultura pop. Agora já pensou uma história de Bang-Bang que se passa num Brasil colonizado pelos ingleses em vez dos portugueses?

Interessado? Inscreva-se abaixo para receber em primeira mão notícias do próximo lançamento épico da Editora Nocaute. O pistoleiro John McLoving se aproxima…

Receba novidades sobre nosso próximo livro, uma história de Faroeste!

 

Sobre o autor

É procurado vivo ou morto. É psicólogo, casado e foi visto pela última vez onde nasceu, na mais mineira das cidades paulistas, Franca. Entrou para vida de bandoleiro escritor após assistir ao filme A Odisséia (1997) quando tinha onze anos de idade, plagiando boa parte dos monstros mitológicos. Lá nascia os personagens de seu romance A Lenda dos Noturnos. Por alguns anos, disfarçou-se de ator e diretor de teatro adaptando obras como Os Miseráveis, O Pequeno Príncipe e O Auto da Barca do Inferno. No mundo das letras, inflou pessoas rabiscando um conto que deu origem ao romance John McLoving e a Busca do Mijo da Vida, conto esse publicado na 2º edição da revista Pulp Fiction. Tambem é autor do romance de ficção fantastica Lorenzo. É fã da obra de Sergio Leone, do game Red Dead Redemption e o clássico Banzé no Oeste. Paga-se boa recompensa a quem o entregar às autoridades.

Posts relacionados

Deixe uma resposta

All fields are mandatory.